"Ficou incomodada com o chiado da chaleira. Lembrou que ainda menina, a mãe lhe proibia de chegar perto do fogão: não era coisa de criança. Agora a filha havia lhe dito algo semelhante: ali não era um bom lugar: as mãos trêmulas e a fraqueza das pernas poderiam provocar algum acidente. Não, não era para ficar perto do fogão. Mas a chaleira chiava mais alto. Em breve a água ferveria. Onde estava a filha? Era preciso desligar o fogo."
Se sentia inútil, incapaz. O medo era maior que a sua vontade de ir até o fogão. O barulho cada vez maior a estressava.
Sem força para levantar ou gritar, ela ficava ali, olhando deprimidamente a água evaporando. Nada mais a interessava naquele instante. À medida que o vapor tomava conta da pequena cozinha, ela enchia os pulmões de ar como sinal de lamentação. Lamentava o fato de ser incapaz, de sentir sozinha e de ter que depender de quem por muito tempo dependeu dela.
Quem era ela agora? Não se reconhecia mais: alguém sempre tão feliz e forte, agora tomada por uma doença tão cruel e humilhante.
Só um chá, um maldito chá, mas nem isso conseguiria fazer.
